5 de setembro de 2016

SBT acerta ao exibir um estilo de novela indiferente à qualidade da Globo

Elenco de "Chiquititas" dos anos 90 / Anúncio de "Carrossel" atual
O público cativo do SBT já sabe o que esperar de suas novelas. Quanto mais melodrama, melhor. Isso vale, inclusive, para as produções infantis atuais. A fórmula vem das novelas importadas, principalmente das mexicanas, que sempre encontraram na emissora uma resposta satisfatória de seu público.

Evitando imitar a Globo, o SBT, na maior parte de sua trajetória, nunca se preocupou com o fato de permanecer aquém da qualidade de sua concorrente, fazendo valer assim a filosofia da ''liderança absoluta do segundo lugar''. Inovar para quê? Pelo contrário: quando começou a fazer novelas, deu um passo atrás diante da teledramaturgia que se fazia no país, voltando aos padrões dos anos 1960, quando a telenovela brasileira ainda não tinha uma cara própria e estava presa ao ranço dos dramalhões latinos.

A dramaturgia do SBT passou por algumas fases nesses 35 anos. Na primeira delas, entre 1982 e 1983, o público recebeu uma opção diferenciada de novelas. ''Os folhetins centralizavam a ação em poucos personagens, abolindo tramas paralelas. Era um retrocesso na Teledramaturgia Brasileira. Só que a emissora de Silvio Santos acertava num dado: oferecer um estilo opcional de novela, indiferente à qualidade das produções da Globo – textos importados, apenas traduzidos, tramas unificadas e poucos capítulos. Assim, evitava-se fazer imitações, como muitas vezes acontecera sem sucesso na Tupi e na Bandeirantes.'' (Ismael Fernandes em ''Memória da Telenovela Brasileira'')

''Desta forma, ao mesmo tempo que retomava o esquema que lançou a telenovela brasileira nos anos 1960, o SBT apresentou uma atração sob medida à sua filosofia popularesca.'' Em seus dois primeiros anos, a emissora levou ao ar 12 títulos seguindo essa fórmula, todas adaptações de novelas mexicanas: “Destino”, “A Força do Amor”, “A Leoa”, “Conflito”, “Sombras do Passado”, “Acorrentada”, “A Ponte do Amor”, “A Justiça de Deus”, “Pecado de Amor”, “Razão de Viver”, “O Anjo Maldito” e “Vida Roubada”. Eram produções pobres, com elenco enxuto e poucos atores conhecidos. E nunca chegaram aos dois dígitos de audiência. Estava claro que, com essas novelas, a emissora  não tinha a pretensão de ser líder no Ibope.

A segunda fase (entre 1984 e 1991) marca um hiato entre a primeira e a terceira fases, com pouca produção própria de dramaturgia, irregular e sem um padrão definido.  Em oito anos, o SBT apresentou apenas seis novelas brasileiras: “Meus Filhos, Minha Vida”, “Jerônimo”, “Jogo do Amor”, “Uma Esperança no Ar”, “Cortina de Vidro” (a primeira de Walcyr Carrasco), e “Brasileiras e Brasileiros” (passagem do diretor Walter Avancini pelo SBT). Mas já não eram mais adaptações de melodramas ''xicanos'', e sim textos nacionais.

A terceira fase é considerada a melhor e a mais rica da dramaturgia do SBT. Ela vem com a contratação do diretor Nilton Travesso, que leva para a emissora vários profissionais da Globo, entre técnicos e atores. Vai de 1994 a 1997, somando oito produções: “Éramos Seis”, “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Sangue do Meu Sangue”, “Razão de Viver” e “Os Ossos do Barão” (com direção de Travesso), e “Colégio Brasil”, “Antônio Alves, Taxista” e “Dona Anja” (produções terceirizadas).

Com investimento em cenografia, arte, figurinos e elenco, Nilton Travesso começou adaptando antigas novelas brasileiras de sucesso, em excelentes produções de época, comparáveis às da Globo, alcançando bons resultados no Ibope das três primeiras (“Éramos Seis”, “As Pupilas do Senhor Reitor” e “Sangue do Meu Sangue”). Com a queda da audiência ao longo do tempo, Silvio Santos desistiu de dar continuidade ao trabalho de Travesso e voltou a investir em melodramas importados.

Animado com o sucesso da trilogia das Marias – “Maria Mercedes”, “Marimar” e “Maria do Bairro”, novelas mexicanas estreladas pela cantora Thalía, exibidas entre 1996 e 1997 – Silvio Santos se voltou novamente às adaptações de importadas, e apresentou, entre 1997 e 2001, quatro títulos: “Chiquititas”, “Fascinação”, “Pérola Negra” e “O Direito de Nascer”. Destas, apenas “Fascinação” não era uma adaptação, mas um texto original de Walcyr Carrasco. Chiquititas, uma coprodução do SBT com a emissora argentina Telefé, virou uma febre e ficou no ar entre 1997 e 2001, somando cinco temporadas.

Em 2001, o SBT assinou um contrato com a mexicana Televisa para a produção e adaptação de suas novelas no Brasil. Começou uma nova fase, que se estendeu até 2008, somando 12 títulos: “Pícara Sonhadora”, “Amor e Ódio”, “Marisol”, “Pequena Travessa”, “Jamais Te Esquecerei”, “Canavial de Paixões”, “Seus Olhos”, “Esmeralda”, “Os Ricos Também Choram”, “Cristal”, “Maria Esperança” e “Amigas e Rivais”. Destas, pelo menos “Canavial de Paixões” e “Esmeralda” alcançaram um êxito relevante.

Em 2008, teve início a “Era Íris Abravanel”. A mulher de Silvio Santos se lançou na roteirização de novelas. O primeiro título foi “Revelação”, a única original. A seguinte, “Vende-se um Véu de Noiva”, era baseada numa radionovela de Janete Clair – o SBT comprou 30 textos radiofônicos da autora, mas só adaptou este. Seguiram-se “Corações Feridos” e as infantis “Carrossel”, “Chiquititas” e a atual “Cúmplices de um Resgate” – todas adaptações. Em 2010, o novelista Tiago Santiago, recém saído da Record, foi contratado e escreveu duas novelas: “Uma Rosa com Amor” e “Amor e Revolução'' – esta última, mais lembrada por uma cena de beijo entre duas mulheres.

Com “Carrossel”, em 2012, o SBT descobriu um filão rentável e sem previsão de se esgotar: a novela infantil para a família. Um fenômeno de audiência para os padrões da emissora (sempre acima dos 10 pontos no Ibope), a novelinha a colocou em segundo lugar no horário nobre, desbancando a Record na época. Esta repercussão refletia a carência de programação infantil no prime-time da TV aberta brasileira. “Carrossel” conseguiu atrair um público que estava nos canais pagos ou até mesmo longe da televisão. O SBT não teve dúvida e, após esse êxito, continuou investindo em remakes de tramas infantis importadas, com a volta de ''Chiquititas'' (em uma nova versão) e ''Cúmplices de um Resgate''. E vem aí “Carinha de Anjo”!

Frente este quadro histórico, pode-se concluir que a referência maior para as novelas do SBT são as ''xicanas''. Produções mais simples, quando comparadas às da Globo, mas que têm em sua essência o folhetim mais puro, que mexe com as emoções básicas do ser humano. Há 35 anos elas estão na grade da emissora. A primeira, “Os Ricos Também Choram” (1982), foi um sucesso da época. Seguiram-se outros êxitos que povoam a memória afetiva dos fãs do SBT: “Chispita”, “Amor Cigano”, ''Estranho Poder'', ''Viviana, em Busca do Amor'', “Rosa Selvagem”, “Carrossel”, “Ambição”, “A Estranha Dama”, “Maria Mercedes”, “Marimar”, “Maria do Bairro”, “A Usurpadora”, ”O Privilégio de Amar”, ''Kassandra'', “A Mentira”, “Esmeralda”, “Café com Aroma de Mulher”, “Rosalinda”, “A Outra”, “A Madrasta”, “Rubi”, “Rebelde”, “A Feia Mais Bela” e outras.

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